Entrevista com Marcus Abreu: Cibersegurança como Prioridade na Indústria de Óleo e Gás

Entrevista com Marcus Abreu: Cibersegurança como Prioridade na Indústria de Óleo e Gás

 

  1. Qual a prioridade ao proteger os sistemas e infraestrutura do ambiente industrial como o de óleo e gás?

No ambiente industrial, a prioridade máxima transcende a mera confidencialidade e integridade de dados. Nosso foco reside na segurança operacional e de processo, cujas falhas, decorrentes de ataques cibernéticos industriais, podem acarretar danos ambientais, interrupção operacional e, em última instância, risco à vida.

Em ambientes de Tecnologia Operacional (OT), adotamos uma adaptação da tríade CIA (Confidencialidade, Integridade e Disponibilidade) para um modelo mais alinhado aos riscos industriais, priorizando a disponibilidade e a integridade em relação à confidencialidade, seguindo inclusive recomendações de frameworks como o NIST SP 800-82.

Na Acelen, a segurança precede a continuidade operacional. Para garantir o controle abrangente, utilizamos o modelo estrela, fundamentado na NISTIR 8183, que engloba a mitigação de riscos inerentes ao setor, como segurança operacional e de processo (preservando vidas e o meio ambiente), continuidade operacional, controle de qualidade de produtos e proteção de dados de propriedade industrial.

  1. Quais são os maiores desafios em termos de segurança cibernética que você enfrenta no setor de óleo e gás, e como a escassez de profissionais qualificados afeta a sua capacidade de lidar com esses desafios?

No setor industrial em geral, a obsolescência de sistemas, dispositivos isolados (air-gap) e a crescente necessidade de convergência de dados industriais para a tomada de decisões corporativas são pontos de grande atenção global. Manter o monitoramento, controle, mitigação de riscos e a redução da superfície de ataque exigem abordagens especializadas em técnicas de cibersegurança, abrangendo gestão, processos e metodologias adaptadas à singularidade de cada planta industrial.

Constatamos uma escassez de profissionais com as habilidades técnicas específicas para essa área. Para mitigar esse fator, investimos continuamente em capacitação e acreditamos na formação de novos talentos provenientes das áreas de engenharia de automação e cibersegurança.

  1. Quais habilidades ou certificações você considera mais importantes para um profissional de cibersegurança no setor de óleo e gás?

Profissionais da área devem possuir vasta experiência em protocolos industriais, sistemas de controle e um profundo conhecimento das normas internacionais e frameworks específicos para cibersegurança em ambientes industriais. A compreensão da análise de risco operacional e da resposta a incidentes é crucial.

Em termos de certificações, a formação ISA/IEC 62443 é fundamental, dada sua relevância e reputação técnica na principal norma para o setor. Adicionalmente, a certificação GICSP (Global Industrial Cyber Security Professional) é altamente valorizada.

 

  1. Como você traduz informações técnicas complexas para diferentes stakeholders, incluindo executivos e equipes não técnicas, e qual a importância dessa habilidade no seu dia a dia?

A capacidade de traduzir informações técnicas é essencial na área de cibersegurança, especialmente em CyberOT, onde a percepção de risco pode ser mais desafiadora. Na Acelen, a experiência da nossa equipe de engenharia em ambientes industriais diversos facilita essa comunicação. Conseguimos dialogar de forma eficaz com a operação e outras disciplinas de engenharia, tanto para conscientização quanto para explicar o potencial de risco de um evento e obter apoio para intervenções.

Um destaque importante é o desenvolvimento e a implementação da metodologia CyberHazop ou CyberPHA na Acelen. Essa abordagem, baseada na análise de risco de segurança de processo e adaptada para as barreiras, riscos e probabilidades de cibersegurança industrial, foi desenvolvida e publicada por Iode Reis, da nossa equipe de Digital, Inovação & CyberOT, e apresentada em eventos como Rio O&G e Bahia O&G. O objetivo principal é tornar a percepção do risco cibernético tangível para o ambiente industrial. Através da avaliação da relevância dos dispositivos dos sistemas de controle, seus níveis de ameaça e vulnerabilidade, e as barreiras de mitigação existentes, calculamos um fator de risco específico. Apresentamos essas informações de maneira similar à análise de risco HAZOP, com uma matriz que ilustra os riscos não toleráveis, moderados e toleráveis, com base em sua severidade e probabilidade de ocorrência.

  1. Deixe uma mensagem para profissionais que queiram entrar neste mercado, destacando quais são as habilidades ainda mais valorizadas no mercado de óleo e gás.

O setor industrial, especialmente o de óleo e gás, necessita de profissionais com atuação multidisciplinar, integrando conhecimentos de engenharia, operação e tecnologia corporativa. A combinação de expertise técnica especializada com a compreensão do processo industrial e sua infraestrutura de automação representa um diferencial significativo.

No contexto de CyberOT (Operational Technology), a formação em engenharia é vantajosa, mas profissionais com graduação em tecnologia, como Ciência da Computação e Sistemas de Informação, também encontram espaço. A busca por certificações específicas em CyberOT agrega um valor considerável.

Acredito que a área de segurança cibernética industrial (CyberOT) oferece um vasto campo de oportunidades para profissionais que já atuam na área ou que desejam se capacitar e ingressar neste dinâmico setor.